Saturday, August 14, 2010

Capitulo 1 - Um Sonho

Eram duas horas da manha, nao conseguia dormir, ouvia no pequeno radio de pilha piadas de uma radio, la fora, a chuva forte caia, relampagos iluminavam as janelas e os trovoes estremeciam o ar deixando um ambiente aterrador.
Pensava no que seria a vida, sonhava um dia poder ir ver aquela terra distante que passava nos filmes da televisao.
O frio bateu levemente por causa do vento que entrava pela fresta da porta de metal no chao frio da sala, as almofadas que eu ajuntava para fazer de colchao se separavam e eu sentia o frio do cha nas costas.
Durante essas epocas, eu tinha que dormir na sala da minha casa, pois o unico quarto que tinhamos, alem do quarto dos meus pais, era ocupado pelas minhas treis irmas, eu e meu dois irmaos dormiamos na sala; eramos seis ao todo.
Nesse ambiente de restricoes, falta de conforto, limitacoes e um pouco de pobreza, um sonho comecava a surgir.
Sempre ouvia meu pai falando sobre a vida nos paises desenvolvidos, sempre falava que a vida no Canada e Nos Estados Unidos eram muito melhores e que os avancos tecnologicos desses paises deixavam o Brasil com um atraso de cinquenta anos.
Eu tentava imaginar como era essa vida que meu pai sempre falava, ai comecei a observar atraves dos filmes como era o estilo de vida das pessoas que viviam nesses paises chamados de "primeiro mundo".
Naquela noite, a chuva continuava forte, eu ouvia o barulho de um carro que havia se atolado na lama da rua, um barulho tipico que aprendemos a identificar quando isso acontecia.
Minha mente nao se tranquilizava, a imagem que eu havia visto no filme, aquelas casas sem cerca, ruas bem planejadas, gramados, carros grandes, casas grandes, pronto, havia sido contagiado pelo o que eles chamavam de "sonho americano".
Minha vida nao era das piores, vivia numa casa recem comprada por meus pais, somente tinha que dividir tudo com meus outros irmaos, meu pai que era um motorista assalariado, tentava nos dar de tudo, principalmente educacao. Liamos muitos livros, ja que nao havia televisao, as informacoes iam se apilhando em nossa cabeca.
Nessa epoca, minha mae comecou a dizer que eu ja tinha idade de ir trabalhar e que acharia um trabalho pra mim, eu estava com onze anos, sofria de uma bronquite que atacava frequentemente desde quando eu nasci, isso me deixava muito fraco e se tornava uma dificuldade grande conseguir respirar.
Na cabeca de menino, nao tinha ideia do mundo la fora, nem sabia o que iria se revelar em minha frente quando fosse trabalhar como minha mae queria.
Eu comecei a trabalhar em pequenas lojas, bancas de feira, fabrica de biscoito, trabalhava por curto periodos nesses empregos, as vezes por meses, as vezes somente por semanas; quando iniciei nesses trabalhos eu estava com doze e quando me aproximava da idade de quatorze anos, comecei a trabalhar distribuindo um jornal gratuito nas portas das estacoes de metro de Sao Paulo, saia de casa as 4:30 da manha, descia no local de onde saia a perua que nos levava para as estacoes, eramos varios garotos, os pacotes de jornal continham cerca de 200 jornais cada e tinhamos que destribuir ate acabar, normalmente eu recebia cerca de cinco pacotes.
Nessa epoca era dificil ficar na porta da estacao no inverno, num frio de matar, o vento soprando da avenida, eu estava ja muito cansado daquilo, mesmo com bronquite, eu tinha que ir trabalhar no frio.
Numa certa manha, distribuindo jornal na estacao Carandiru, eu vi um anuncio de emprego na ultima pagina, para o cargo de office-boy, o anuncio somente dizia que deveria ser maior de quatorze anos.
Andei ate o escritorio, apos obter informacoes com os taxicistas e descobrir que o local era o Centro de Exposicoes do Anhembi, perto do Carandiru.
Quando cheguei ao escritorio, estava ainda fechado, esperei sentados em umas cadeiras do lado de fora, logo a funcionaria chegou e me disse que me atenderia, varios outros garotos foram chegando e logos eramos mais de dez candidados.
A funcionaria comecou a chamar todos os que haviam chego apos eu e eles saiam logo em seguida; sem entender fiquei ate aborrecido ate que ela finalemente me chamou, eu era o ultimo. Me disse pra eu voltar com meus documentos e minha mae no dia seguinte. Eu sai de la radiante.
Trabalhei no Anhembi por nove anos, sempre envolvido pelos eventos internacionais que la aconteciam, sempre vendo estrangeiros falando seus idiomas e tudo isso me inspirava.
Um dia, estressado, pedi demissao; acabei indo trabalhar para a Varig e consequentemente realizei meu grande sonho, vir para os Estados Unidos.
O Exilado financeiro e um apanhado de experiencias, minhas e de outros durantes os varios anos morando no oeste do estado de Massachusetts.
Minha expectativa e transparecer a realidade do imigrante brasileiro e de outras nacionalidades.